O Banco Central do Brasil comunicou ao Ministério Público Federal (MPF) que pelo menos quatro fundos de investimento, sob apuração por possíveis ligações com organizações criminosas, estariam envolvidos em um esquema de fraude financeira relacionado ao Banco Master. A informação faz parte de denúncia encaminhada pelo órgão regulador no contexto das investigações que levaram à intervenção na instituição.
De acordo com a análise técnica do Banco Central, os fundos teriam sido usados em uma sequência de operações estruturadas que permitiam inflar artificialmente o valor de determinados ativos e, dessa forma, mascarar a real situação financeira do banco. O objetivo, segundo os técnicos, seria fazer com que recursos retornassem ao controle do controlador do Master e de diretores da instituição.
As aplicações suspeitas envolvem fundos administrados pela Reag DTVM, empresa que já foi alvo da Operação Carbono Oculto, investigação da Polícia Federal que mira esquemas de lavagem de dinheiro com suposta participação de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e atividades no setor de combustíveis. Wikipédia
Segundo o Banco Central, as transações sob suspeita podem somar cerca de R$ 11,5 bilhões, um volume significativo que aponta para irregularidades no uso de instrumentos financeiros para alimentar a aparência de solvência da instituição antes de sua liquidação extrajudicial.
Como teria funcionado o suposto esquema
O relatório técnico descreve que o Banco Master teria concedido empréstimos a empresas, que, por sua vez, teriam aplicado esses recursos nos fundos de investimento suspeitos. Esses fundos compraram ativos com baixa liquidez por valores significativamente superiores ao seu valor de mercado, inflando o patrimônio contábil e reforçando a impressão de capital disponível sem que esse montante estivesse efetivamente lastreado.
Especialistas citados no documento afirmam que esse tipo de operação pode distorcer a percepção de investidores e dos órgãos reguladores sobre a real condição financeira de um banco, além de esconder perdas potenciais e comprometer a gestão de riscos.
Indícios de crime e falhas de gestão
No material enviado ao MPF, o Banco Central aponta indícios de crimes contra o sistema financeiro nacional cometidos por administradores do Banco Master e de empresas ligadas aos fundos em questão. A comunicação também menciona falhas graves no controle interno e na gestão de riscos, o que teria ajudado a ocultar perdas e reduzir a transparência das operações.
O regulador acrescenta que as operações estruturadas de crédito corporativo realizadas pelo Master entre 2023 e 2024 apresentaram elevada concentração em poucos clientes e foram realizadas sem observância de princípios essenciais como liquidez, diversificação e seletividade. Fundos usados como garantia, em teoria, deveriam prover liquidez, mas, na prática, não teriam cumprido essa função.
Consequências e desdobramentos
As suspeitas de irregularidades fizeram parte dos argumentos que levaram o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro do ano passado, diante da deterioração de sua situação econômico-financeira e do esgotamento de soluções de mercado.
O caso também segue em análise no Tribunal de Contas da União (TCU), onde a atuação do Banco Central e a conduta dos gestores do banco têm sido avaliadas por autoridades responsáveis pela fiscalização da administração pública e do sistema financeiro.
Fonte: Por Cláudia Bomtempo, Fernanda Vivas, Reynaldo Turollo Jr, g1