Operação da PF revelou rombo de até R$ 50 bilhões no Banco Master. Mas decisões do STF que geraram controvérsia transformaram a investigação criminal em confronto institucional
Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero e expôs o que investigadores classificam como uma das maiores fraudes bancárias já apuradas no Brasil. Os números são expressivos: entre R$ 12 bilhões e R$ 50 bilhões em ativos considerados fictícios envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. Cerca de 800 mil investidores aguardam ressarcimento de R$ 40,6 bilhões por meio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Mas o caso rapidamente deixou de ser apenas sobre dinheiro. A decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), de avocar integralmente a investigação para sua relatoria, impor sigilo rigoroso e adotar uma condução centralizada das diligências gerou questionamentos públicos de delegados, procuradores e parlamentares. Revelações sobre relações comerciais indiretas envolvendo familiares do ministro e fundos ligados a investigados, somadas a um contrato de R$ 129 milhões entre o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes e o banco sob investigação, ampliaram o debate público sobre a existência de possíveis conflitos de interesse.
Para entender por que este caso importa, é preciso começar pelo esquema.
O banco que prometia o impossível
Daniel Vorcaro controlava o Banco Master, instituição de pequeno porte que oferecia Certificados de Depósito Bancário — os CDBs, investimentos de renda fixa considerados seguros — com rendimentos até 40% acima da taxa básica de juros. Se o mercado pagava 10% ao ano, o Master prometia 14%. Se outros bancos ofereciam 12%, o Master chegava a 17%.
No mercado financeiro, retorno alto costuma significar risco alto. Quando um banco oferece rendimentos muito acima da média, ou está assumindo investimentos extremamente arriscados, ou apresenta fragilidades na capacidade de honrar esses compromissos. No caso do Master, investigadores avaliam que os elementos reunidos até agora indicam essa segunda possibilidade.
A promessa atraiu inicialmente cerca de 1,6 milhão de credores — número depois revisado para aproximadamente 800 mil. Em sua maioria, eram pessoas físicas e pequenos investidores que acreditavam estar fazendo um bom negócio dentro do sistema financeiro formal.
Três pilares de uma fraude sofisticada
O esquema do Banco Master não era simples. Ele foi estruturado em múltiplas camadas, desenhadas para enganar investidores, auditores e reguladores.
Primeiro: o banco captava recursos com promessas incompatíveis com a realidade do mercado, oferecendo CDBs de rentabilidade muito elevada. Parte desses recursos não era destinada a investimentos produtivos, mas usada para honrar pagamentos a investidores antigos — mecanismo que investigadores comparam a pirâmides financeiras clássicas.
Segundo: o Master utilizava estruturas ligadas à Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários para mascarar sua fragilidade financeira. O banco direcionava recursos a fundos estruturados pela Reag, que posteriormente adquiriam ativos problemáticos do próprio Master. No papel, o banco aparentava solidez; na prática, o dinheiro circulava dentro do mesmo ecossistema. Entre julho de 2023 e julho de 2024, esse circuito movimentou aproximadamente R$ 11,5 bilhões, segundo dados do Banco Central.
Terceiro: o banco criou carteiras de crédito que não teriam existência comprovada e tentou vendê-las a outras instituições. O episódio mais emblemático foi a tentativa de negociar R$ 12,2 bilhões em supostos créditos consignados com o Banco de Brasília (BRB), instituição pública do Distrito Federal.
Durante a apuração, Vorcaro apresentou versões distintas sobre a origem desses créditos. Primeiro afirmou tê-los adquirido de associações de servidores na Bahia; depois atribuiu a pessoas físicas; por fim, mencionou uma empresa chamada “Tirreno Promotoria de Crédito”. Segundo a Polícia Federal, as versões contraditórias reforçaram a suspeita de que os ativos não existiam.
O colapso inevitável
Toda estrutura baseada em captação contínua enfrenta um ponto de ruptura: quando o dinheiro novo deixa de ser suficiente para cobrir obrigações antigas. Para o Banco Master, esse momento chegou em novembro de 2025.
À época, a instituição dispunha de apenas R$ 4,8 milhões em caixa livre, mas precisava honrar R$ 48,6 milhões em CDBs vencidos — uma defasagem de quase dez vezes. Considerando os fluxos semanais, o déficit alcançava R$ 120 milhões.
Ainda mais grave era a situação do recolhimento compulsório — depósitos obrigatórios que os bancos devem manter junto ao Banco Central. A exigência para o Master era de R$ 2,53 bilhões; o banco havia recolhido menos de R$ 25 milhões, o equivalente a menos de 1% do devido.
Diante desse cenário, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição em novembro de 2025. Do ponto de vista regulatório, o banco deixou de existir.
Quando o caso vai para o STF — e começam as controvérsias
Três semanas após a liquidação, em 28 de novembro, o ministro Dias Toffoli foi sorteado relator do caso no STF. No dia seguinte, viajou para Lima, no Peru, em um voo particular para assistir à final da Libertadores. No mesmo avião estavam o empresário proprietário da aeronave e o advogado Augusto Arruda Botelho, que defendia Luiz Antônio Bull, diretor do Banco Master preso na operação.
Toffoli afirmou posteriormente que não houve conversa sobre o processo durante a viagem. Três dias depois, Botelho protocolou recurso solicitando a transferência do caso para o STF. Em 3 de dezembro, Toffoli acolheu o pedido, avocou integralmente a investigação — termo jurídico que significa retirar o processo da instância onde tramitava e concentrar sua condução em tribunal superior — e decretou sigilo de nível 3, um dos mais restritivos da Corte.
Nesse grau de sigilo, apenas o gabinete do relator e servidores habilitados têm acesso integral aos autos. Nem mesmo outros ministros podem consultá-los livremente antes de julgamento. A justificativa oficial foi a presença de informações econômicas sensíveis com potencial impacto no mercado financeiro.
Juristas consultados por veículos de imprensa questionaram a proporcionalidade da medida. O banco já estava liquidado e o impacto no mercado, consumado. Casos anteriores de fraudes bilionárias no Brasil raramente tramitaram sob grau de sigilo semelhante.
A justificativa jurídica sob questionamento
Do ponto de vista formal, a transferência foi fundamentada na menção ao deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), cujo nome apareceu em um contrato imobiliário apreendido durante a investigação. A argumentação foi de que, havendo autoridade com foro por prerrogativa de função, a competência passa ao STF.
Precedentes do Superior Tribunal de Justiça, porém, indicam que a simples menção a autoridade não é suficiente para deslocar a competência. É necessário envolvimento direto nas condutas investigadas.
No caso de Bacelar, não havia, até então, evidências públicas de participação em gestão fraudulenta, emissão de títulos irregulares ou negociação de carteiras fictícias. Seu nome constava em documento privado, sem indícios claros de ilícito.
A advogada criminalista e doutora em Direito Dineia Anziliero Dal Pizzol observou que o foro por prerrogativa deve ser interpretado de forma restritiva, aplicável apenas quando há elementos concretos de envolvimento da autoridade.
Mesmo em situações de conexão, explicam especialistas, seria juridicamente possível fracionar a investigação: atos relacionados ao parlamentar permaneceriam no STF, enquanto o restante seguiria na primeira instância. Não foi o caminho adotado. Toffoli determinou que qualquer medida judicial fosse previamente avaliada pela Corte.
Provas sob custódia do STF
Em 14 de janeiro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da operação, apreendendo 39 celulares, 31 computadores, documentos e outros bens. O procedimento usual é a realização imediata de perícia técnica.
No caso, Toffoli determinou que o material permanecesse sob custódia do STF, com análise condicionada a novas deliberações. À medida que novos elementos vieram a público, a decisão passou a ser questionada por investigadores e parlamentares.
Fontes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República ouvidas pela BBC afirmaram nunca ter presenciado procedimento semelhante. Após manifestação da PGR, o ministro alterou parcialmente o despacho, autorizando o envio das provas à Procuradoria, mas mantendo controle rigoroso sobre o material.
No mesmo período, cobrou explicações públicas do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sobre suposto descumprimento de prazos. A Polícia Federal argumentou que investigações dessa complexidade exigem planejamento técnico adequado.
O presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, Edvandir Felix de Paiva, declarou que a categoria estava “perplexa”, defendendo que decisões estratégicas e planejamento operacional cabem à PF.
Relações comerciais que geraram questionamentos
Documentos de transações comerciais revelam relações indiretas entre investigados do caso, executivos ligados à Reag Investimentos e familiares do ministro Dias Toffoli. Em 2021, os irmãos do ministro venderam parte de sua participação em um resort no Paraná a fundos administrados pela Reag.
Esses fundos tinham como representante legal um executivo investigado em outro inquérito e como cotista pessoa ligada a Daniel Vorcaro. Não há acusação criminal contra Toffoli ou seus familiares, e as transações podem ter sido legítimas. Ainda assim, juristas avaliam que a situação levanta debate sobre aparência de parcialidade — conceito relevante no Direito Processual.
O senador Eduardo Girão levou o caso à Procuradoria-Geral da República, alegando que relações comerciais indiretas com investigados podem suscitar questionamentos sobre imparcialidade judicial.
O contrato envolvendo a família Moraes
Outro ponto sensível envolve um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O contrato previa pagamentos mensais de cerca de R$ 3,6 milhões por serviços de representação institucional em diversos órgãos.
Dois filhos do ministro trabalham no escritório. Uma cópia digitalizada do contrato foi encontrada no telefone de Daniel Vorcaro, e os pagamentos foram interrompidos após a liquidação do banco. Especialistas ouvidos pela imprensa afirmam que a situação reforça o debate público sobre necessidade de declaração de suspeição, ainda que não haja acusação formal de irregularidade.
O celular que concentra atenções
Investigadores avaliam que o celular de Daniel Vorcaro pode conter informações relevantes envolvendo autoridades de diferentes Poderes. O acesso ao dispositivo segue sob perícia especializada, uma vez que a senha não foi fornecida.
Mensagens já acessadas indicariam orientações para impulsionar conteúdos favoráveis ao banco e reagir a decisões do Banco Central. A Polícia Federal identificou dezenas de perfis suspeitos de ataques coordenados ao regulador, alguns deles remunerados para produzir conteúdo crítico.
Pressões sobre o Banco Central
Paralelamente, o ministro do Tribunal de Contas da União Jhonatan de Jesus determinou inspeção sobre a atuação do Banco Central na liquidação do Master, apontando indícios de precipitação. A medida gerou controvérsia entre especialistas, que lembram que a liquidação de banco privado é decisão técnica e não envolve diretamente recursos públicos.
Instituições financeiras divulgaram nota em defesa do Banco Central. O temor, segundo analistas, é que a revisão de decisões técnicas por órgãos externos enfraqueça a autonomia do regulador.
O que está em jogo
O caso Banco Master transcende a fraude financeira. Trata-se da capacidade do Estado brasileiro de investigar irregularidades econômicas envolvendo agentes com conexões institucionais relevantes.
Investigadores avaliam que a condução centralizada do processo no STF, com controle rigoroso sobre prazos e acesso às provas, impactou o ritmo da apuração. Para juristas e especialistas em direito público, o episódio levanta questões estruturais sobre conflitos de interesse e o modelo de condução de investigações envolvendo autoridades com foro privilegiado.
Pedidos de impeachment e propostas de CPMI demonstram a dimensão política do caso. Especialistas alertam que a forma como essas questões serão conduzidas nos próximos meses terá impacto direto sobre a credibilidade das instituições e a confiança pública no sistema de Justiça.
A fraude financeira já ocorreu e seus efeitos são irreversíveis para milhares de investidores. A crise institucional, porém, ainda pode ser contida — ou agravada — pelas escolhas que estão sendo feitas agora.
Sérgio Martins | ContextoBR