Autoridades iranianas admitem pela primeira vez dimensão da repressão aos manifestantes, enquanto organizações de direitos humanos alertam que número real pode ser ainda maior
Autoridades iranianas confirmaram neste domingo que pelo menos 5 mil pessoas morreram desde o início dos protestos que tomaram o país no final de dezembro de 2025. O número representa a maior onda de violência política no Irã desde a Revolução Islâmica de 1979, que derrubou a monarquia e instaurou o regime teocrático atual.
A informação foi divulgada por uma fonte oficial iraniana à agência Reuters, que atribuiu as mortes a “terroristas e desordeiros armados”. Do total de vítimas, cerca de 500 seriam agentes de segurança. A mesma fonte afirmou que não se espera aumento significativo no número final de mortos.
Organizações independentes de direitos humanos contestam os dados oficiais. A Agência de Notícias dos Ativistas pelos Direitos Humanos (HRANA), sediada nos Estados Unidos, contabilizou 3.308 mortes confirmadas até o sábado, com outros 4.382 casos ainda em análise. A entidade também documentou mais de 24 mil prisões.
O que está em jogo
Os protestos expõem a fragilidade do regime teocrático iraniano diante de uma população pressionada por crises múltiplas. O que começou como manifestações contra o aumento de preços transformou-se no maior questionamento ao governo dos aiatolás em décadas.
O líder supremo Ali Khamenei, no poder desde 1989, enfrenta o dilema entre manter a repressão e arriscar uma escalada ainda maior da violência. Ao admitir oficialmente milhares de mortos, as autoridades reconhecem implicitamente a gravidade da situação, ao mesmo tempo em que tentam atribuir a culpa a agentes externos.
A resposta do regime incluiu bloqueio quase total da internet, impedindo que imagens e relatos saíssem do país. Testemunhas em Teerã descreveram confrontos intensos, com forças de segurança usando munição letal contra manifestantes desarmados. Hospitais da capital e de outras cidades foram relatados como sobrecarregados.
O que muda na prática
A dimensão da repressão altera o cenário político interno e externo do Irã. Internamente, a legitimidade do regime sofre desgaste profundo. O presidente Masoud Pezeshkian, eleito em 2025 com promessas de reformas, viu seu projeto político naufragar em menos de seis meses, sem poder controlar as forças de segurança que respondem diretamente a Khamenei.
No plano internacional, a crise reposiciona o Irã no centro das tensões geopolíticas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou intervenção militar caso o regime continue executando manifestantes. A União Europeia convocou reuniões emergenciais e prepara novas sanções. O Conselho de Segurança da ONU debateu a situação classificada como “explosiva” pela organização.
As sanções econômicas tendem a se intensificar, agravando ainda mais a crise que originou os protestos. O rial iraniano continua em desvalorização acelerada, enquanto a inflação corrói o poder de compra da população.
Análise
A violência em escala inédita revela uma ruptura entre o regime e amplos setores da sociedade iraniana. Diferentemente de protestos anteriores, como os de 2022 após a morte de Mahsa Amini, a atual onda mobilizou não apenas jovens e universitários, mas também comerciantes tradicionais dos bazares, historicamente aliados do regime.
A estratégia de repressão massiva demonstra que as autoridades iranianas optaram por esmagar a revolta pela força, apostando no medo para interromper a mobilização. O anúncio de execuções sumárias de manifestantes presos, sem julgamento adequado, confirma essa linha.
Porém, a própria dimensão da violência pode tornar-se insustentável. Com milhares de famílias enlutadas e dezenas de milhares de presos, o regime cria um estoque de ressentimento que pode alimentar novas ondas de protestos. A questão deixou de ser apenas econômica para tornar-se existencial sobre o futuro do sistema político iraniano.
A comunidade internacional enfrenta escolhas difíceis. Intervenção militar, como sugerida por Trump, carrega riscos enormes de escalada regional. Sanções, embora politicamente mais palatáveis, tendem a atingir a população já castigada pela crise. Apoio logístico aos manifestantes, como o oferecimento de internet via satélite, caminha numa linha tênue entre solidariedade e interferência.
Próximos passos
O regime iraniano indicou que considera a fase mais aguda dos protestos superada, mas a situação permanece instável. A retomada parcial da internet permitirá que mais informações circulem, potencialmente revelando uma dimensão ainda maior da repressão.
Organizações de direitos humanos continuam pressionando por investigações independentes e pelo fim das execuções. A ONU pediu acesso ao país para verificar denúncias de uso excessivo de força.
No plano diplomático, Estados Unidos e União Europeia devem anunciar novas medidas punitivas nas próximas semanas. A questão é se essas sanções conseguirão pressionar o regime sem agravar ainda mais o sofrimento da população iraniana.
O desfecho da crise definirá não apenas o futuro imediato do Irã, mas o equilíbrio de poder em todo o Oriente Médio. Por enquanto, o regime dos aiatolás demonstra disposição de pagar qualquer preço para manter-se no poder.
Por Sérgio Martins – redação do ContextoBR